abril 06 2020 0comment

O que aconteceu com o fazer nada?

Diante de tanta conversa sobre aproveitar melhor o tempo, 10 rotinas de pessoas bem sucedidas, não procrastinar etc. e, embora eu realmente faça uso dessas dicas, venho me perguntando: será que todo o nosso tempo precisa ser preenchido com algo produtivo?

Não estou nem sequer falando sobre ócio criativo, porque pra mim esse termo por si só pressupõe que mesmo se você ficar parado, precisa ter por finalidade conceber algo brilhante ao final do seu fazer nada.

 

Estou falando sobre sentar e assistir televisão sem se sentir culpado porque o programa não é culto o bastante e você não aprende nada com ele. Sobre sair e passear no parque sem se culpar porque você não está lendo os seus emails ou porque a casa não está limpa. Sobre dormir até o olho abrir. Sobre ler um romance.

 

Pode parecer que eu estou me contradizendo, mas em primeiro lugar, as coisas que escrevo também são para auto reflexão. Segundo, eu acho que existem dois tipos de conversas sobre tempo: uma quando você realmente quer fazer mais e não sabe como (e aí sim você vai aproveitar as dicas sobre o assunto), e outra que vou chamar de ¨simplesmente estar¨.

 

Vou dar um exemplo: eu sou fã da Pedagogia Waldorf. É um método de ensino que respeita profundamente o ritmo da criança, o seu modo preferido de aprender e o seu tempo de aprender. As crianças aprendem de forma muito orgânica, utilizando elementos do seu entorno e da natureza (terra, madeira), e o aprender se dá brincando, escutando estórias etc. Neste ambiente o brincar tem uma finalidade. Mas quando foi que a criança passou a ter (em casa) a obrigação de brincar com uma finalidade? Quando entrou a patrulha dos brinquedos de madeira, do não poder isso e aquilo, de ser produtivo até mesmo para as crianças?

 

O filósofo Bertrand Russel, no seu livro ¨O elogio ao ócio¨, diz: ¨Se o assalariado comum trabalhasse quatro horas por dia, haveria bastante para todos, e não haveria desemprego – supondo-se uma quantidade bastante modesta de bom senso organizacional. Essa idéia choca as pessoas abastadas, que estão convencidas de que os pobres não saberiam o que fazer com tanto lazer

 

Não quero entrar aqui numa discussão social sobre o papel da elite e da Revolução Industrial sobre a produtividade. O que me interessa é: será que nós sabemos o que fazer quando temos tempo livre? Será que sabemos aproveitá-lo – não no sentido de ¨tornar proveitoso¨, mas no sentido de apreciar, desfrutar?

 

Em outro trecho do livro, Russel diz, ironicamente: ¨´É verdade que meu corpo precisa de horas de descanso, que procuro preencher da melhor forma, mas meu maior prazer é ver raiar o dia para poder voltar ao trabalho, que é a fonte da minha felicidade.’ Nunca ouvi nada do gênero saindo da boca de nenhum trabalhador.¨

 

É claro que estamos falando de um livro publicado em 1939, mas as pessoas para quem essa frase não soa tão irônica, estão sim começando a procurar modelos diferentes de trabalho, que lhes permitam ter mais tempo para viajar, para contemplar e sobre o qual possam dizer: ¨amo o que eu faço¨. Elas passaram a perceber que o trabalho pode sim ser prazeroso e que o controle da quantidade de tempo dedicado ao trabalho pode ser seu. Veja, por exemplo, os Nômades Digitais.

 

Como Coach o que é importante pra mim é que você, primeiro, esteja consciente do que você quer. Se você quer que seu tempo seja produtivo, então eu posso ajudá-lo com ferramentas para isso. Se você quer ter mais tempo livre (e escolher o que fazer com esse tempo, seja estudar, ficar com a sua família ou fazer nada), ok, posso ajudá-lo a alcançar isso. Mas a pergunta é: o que você quer? E a segunda reflexão é: por  que você quer? Foi sua escolha? Você se viu obrigado a fazer algo pelas circunstâncias da vida? Ou por que se comprometeu (ainda que consigo mesmo) a fazer algo e agora não quer voltar atrás? Se você perceber que realmente não escolheu, ou que escolheu mas agora não faz mais sentido, vamos explorar as opções porque, acredite, quase sempre existe outra opção. E se você escolher fazer nada, que fique em paz com isso.

 

Que tal experimentar ¨simplesmente estar¨ no próximo final de semana e compartilhar como foi pra você?

 


Dulcineia Sañtos é Life Coach, certificada pelo NeuroLeadership Group em Londres.

www.dulcineiasantos.com

 

novembro 08 2018 0comment

Para o que você está dizendo não?

By Dulcineia Sañtos

Esta semana eu propus a um amigo que ficássemos uma semana sem dizer ¨não¨.

A coisa começou porque eu notei que a minha primeira reação é dizer ¨não¨, especialmente para coisas novas, desconhecidas. Aliás, eu começo frases com ¨não, mas¨. Não, mas eu quero mesmo é escrever todos os dias. Não, mas eu tenho certeza que vai dar certo.

Já notou quantas vezes dizemos ¨não¨ todos os dias? Para as crianças, para o parceiro, para o cliente, para nós mesmos.

Às vezes é necessário, eu sei. Mas às vezes falamos ¨não¨ pelo hábito mesmo. Eu me lembro de ver a filha de uma amiga pedindo para brincar no quintal, e ela disse: ¨não¨. Quando a criança saiu, eu perguntei: ¨É Domingo, está sol. Por que ela não pode brincar? Está de castigo?¨ Ela ficou olhando pra mim e nós começamos a rir, porque não havia motivo nenhum para ela não deixar a criança brincar.

E mesmo quando há um motivo, não haveria outras maneiras de dizer a mesma coisa? Muitas vezes não é sobre o que é dito, mas sobre como é dito. Carol Nalon, que trabalha com Comunicação Não-Violenta, fala muito sobre a empatia, e como é importante mostrar que entendemos a dor daquela pessoa. Ao invés de dizer ao seu cliente: ¨não é possível te reembolsar¨, que tal mostrar empatia e explorar possibilidades, ao invés de dificuldades? : ¨Sinto que este produto não atendeu às suas necessidades, esse tipo de coisa é realmente frustrante. Mas que tal efetuarmos um crédito para que você possa adquirir outro produto?¨

E quando dizemos ¨não¨ para nós mesmos? Às vezes é difícil reconhecer que você está fazendo isso. Você está reclamando que está sem namorada, por exemplo. Então vem o seu amigo e te convida para um almoço com vários amigos, uma oportunidade perfeita para conhecer gente nova. E você diz não.

A pergunta que eu realmente quero fazer pra você, no entanto, é: quando você diz não para isto, para o que está dizendo sim?

No exemplo acima: pode ser que no fundo, você goste de ser livre. Quando você diz não para a possibilidade de conhecer gente, está dizendo sim para as suas noites livres, para não dar satisfação à ninguém.

Como não estamos muito habituados a pensar assim, vou dar outro exemplo: você diz que quer mudar de carreira, mas não pensa ou procurar alternativas. Quando você diz não para uma nova carreira, pode estar dizendo sim para a sua zona de conforto, para um status que talvez você já tenha adquirido na carreira atual, para o desânimo de entrar numa sala de aula novamente para fazer um curso relacionado àquela carreira.

Te convido a aceitar o desafio e ficar algum tempo dizendo ¨sim¨. Para convites, para possibilidades, para gente que pensa diferente de você. Você pode começar aos poucos, com um dia por semana, por exemplo, e ir aumentando.

De minha parte, posso dizer, passados 3 dias do início do meu desafio, que quando você diz sim para a vida, a vida diz um SIM enorme pra você! 😉


Dulcineia Sañtos é Life Coach, certificada pelo NeuroLeadership Group em Londres.

www.dulcineiasantos.com

abril 17 2018 0comment

Desistir também faz parte do processo

Por Dulcineia Sañtos

O site Business Insider publicou esse maravilhoso artigo (em inglês, aqui) sobre Ellen Chisa, a VP do app de viagens Lola. No artigo ela descreve como foi importante para o seu sucesso optar por se demitir de bons empregos, ou de desistir de Harvard, depois de um ano de curso.

Muitas vezes encontro pessoas que estão absolutamente infelizes, mas que se agarram no fato de que o emprego é seguro ou que determinada situação (faculdade, casamento) traz status, ou, simplesmente, porque tem medo do que não conhecem.

Querer segurança é normal e compreensível, mas chega uma hora em que, para alguns, não há outro caminho senão escolher entre o que conhecem e um mundo cheio de possibilidades.

Alguns pontos que achei interessantes no artigo e que podem ajudar na sua reflexão:

  1. a) “Ela não sabia o que queria levar da experiência em Harvard, com isso não sabia como priorizar suas aulas. Estava faltando contexto.” (tradução livre).

Primeiro: você sabe onde quer chegar e o que quer obter da sua experiência atual? Sabe por que está fazendo o que está fazendo? Você entrou na faculdade de Direito porque já trabalhava num escritório de advocacia ou foi consciente, de forma ativa, feita a partir do desejo  do seu coração?

Segundo: Quando você percebe que sua performance não está ao seu contento (como não saber como priorizar as aulas), isto pode sinalizar que está faltando algo. Seu emprego pode ser o melhor do mundo, mas precisa fazer sentido para você.

Faça uma lista do que é importante pra você nesse momento e tente ver como o seu emprego (curso, relação afetiva) se encaixa nisso, e não o contrário.

  1. b) ¨Ela sempre poderia voltar a Não haveria outra oportunidade de aproveitar este estágio do Lola novamente.”

¨Só não existe jeito pra morte¨. Uma maneira de te ajudar a tomar uma decisão é pensar em qual seria o pior cenário, e então, considerar alternativas caso isso aconteça.

É muito raro que a realidade seja tão medonha quanto tendemos a achar que é, mas se o pior acontecer, o que você poderia fazer? Estar preparado para isto pode ajudá-lo a superar o medo de se arriscar.

Por exemplo, se você trocar de emprego e não passar no período de experiência, qual a sua alternativa? Usar suas reservas? Contar com o suporte do seu parceiro por uns meses? Ou ainda, qual a garantia que você tem que não será demitido do seu emprego atual nos próximos 3 meses?

  1. c) Verifica-se que é possível saber demais. Quando você se vê muito acostumado em um papel, começa a desenvolver pontos cegos. Você pode saber intuitivamente que algo está errado, mas você não será capaz de ver soluções verdadeiramente originais.” (tradução livre).

 A sua mente está na zona de conforto e nada mais o desafia. Isso pode ser altamente desestimulante. E uma das razões para considerar que talvez seja hora de começar de novo.

O que eu vejo em algumas pessoas é o medo de dar um passo atrás. Eu sempre me lembro da minha Coach dizendo: ¨para o corredor dar o impulso, ele precisa dar uns passos para trás¨.

Tente fazer este exercício: feche os olhos e se imagine sobrevoando sua vida atual dentro de um helicóptero. Observe as sensações, os sentimentos, as pessoas à sua volta, o mundo à sua volta. Você está sorrindo? Agora faça o mesmo, mas sobre a vida que você gostaria de ter. Como seria viver tendo suas capacidades realmente aproveitadas? Como seria trabalhar num lugar em que as pessoas acreditassem no seu potencial?  Como seria fazer o que você ama?

  1. d) Cheque se sair é realmente a opção

Algumas perguntas que ela sugere:

  • Estou aprendendo coisas novas? A culpa é minha ou da minha empresa?
  • Eu discordo da forma que meus colegas de trabalho fazem as coisas? Se sim, eu tenho tentado verdadeiramente mudar suas mentes?
  • Eu acredito na liderança aqui?
  • Eu me sinto bloqueado, e em caso afirmativo, por que existem essas barreiras?
  • Eu dei tempo suficiente para me ajustar? Aprender? Para encontrar os defensores / mentores / professores / aliados adequados?
  • Será que é só o fim da lua de mel e o começo do trabalho real?

 

  1. e) ¨Se suspeitar que você quer parar em algum momento (mesmo que num futuro distante), estabeleça um prazo para si, para dar um passo atrás e refletir

Esta é uma ótima alternativa e pode tirar um peso das suas costas enquanto você tem tempo para fazer o que for necessário (juntar dinheiro? mais experiência?). Mas leve o prazo a sério.  E procure se dar pequenas recompensas pelo caminho: viagens de final de semana, um bom jantar uma vez por semana, qualquer coisa que ajude seu cérebro a entender que o esforço vale a pena. E tente conseguir o máximo durante esta experiência.

 

  1. f) Quando você se dá permissão para dizer não para tudo aquilo que não te atrai de verdade num nível instintivo por um período de avaliação experimental, você começa a reconhecer padrões.

 

Dizer “não” revela confiança em si mesmo, em seus valores, o valor que você dá ao seu tempo. Como dissemos neste artigo, uma das coisas que vai te ajudar a saber para o que dizer não, é estar consciente do seu propósito.

 

  1. g) “Quando você tiver 70 anos, como vai se sentir por não ser realizado, seja lá o que for?

 Sem arrependimentos. Cada passo do seu caminho tem um valor – pode ser apenas aprender uma lição. Eu me lembro de assistir a uma palestra sobre empreendedorismo uma vez, e o palestrante disse: ¨Eu não fali 5 vezes. Cada vez eu aprendi o que não fazer para que hoje o meu negócio seja um sucesso¨.

Bônus:

  1. h) Leia sobre a vida de pessoas que você admira e inspire-se! Aprenda as lições e use para chegar lá. Sucesso!
março 27 2018 0comment

Tome as rédeas do seu tempo!

Por Dulcineia Sañtos

¨As pessoas que focam, conseguem as coisas. Pessoas que priorizam, conseguem as coisas certas. ¨ – John Maeda

Tempo é o ativo mais importante que temos. E não estou falando apenas do tempo que usamos para trabalhar ou para cuidar dos filhos e das tarefas de casa. Pare pra pensar em quanto vale a sua hora de trabalho, depois atribua um valor para a sua hora livre. Provavelmente ela vale muito mais pra você do que qualquer outra coisa. Por isso, saber usar o seu tempo de forma inteligente, não só é mais produtivo, como também pode te trazer maior qualidade de vida.

Quando falamos sobre autogestão, a primeira ferramenta é o autoconhecimento.

Você sabe como e com o que está usando o seu tempo?

Uma maneira de descobrir isto é fazendo um registro de suas atividades diárias em um caderno. Pode ser algo simples, como esta planilha:

Dia típico Dia ideal Humor
8:00 Com sono
9:00 Alerta

 

Na coluna ¨Dia Típico¨, anote todas as suas atividades: cada projeto no qual está trabalhando, emails, estudo, tempo no whatsapp (sim, você vai se surpreender com quanto tempo isto está te tomando), Facebook, banho etc. Na coluna ¨Humor¨, anote como você se sentiu enquanto fazia aquela atividade (cheio de energia? cansado?). Faça isso por pelo menos 10 dias. Explicarei sobre a coluna “Dia ideal” mais abaixo.

Use isso apenas como uma ferramenta de autoconhecimento. Não se julgue, nem se culpe.

Depois disto, é hora de pensar em priorizar.  De acordo com David Rock em seu livro ¨Your Brain at Work¨ (“Seu cérebro trabalhando”, tradução livre), priorizar é uma das atividades que mais consume energia do cérebro. Por esta razão, deveria ser a nossa primeira atividade pela manhã. ¨Prioritize prioritizing¨ (algo como, “priorize priorizar “), ele diz.

Para priorizar, você precisa saber qual é o nível de dificuldade de uma atividade.

As que não requerem muito esforço, como deletar um e-mail ou fazer a cama, são nível 1. Atividades que requerem um pouco mais de concentração, como ligar para um cliente ou ajudar na lição do seu filho, são nível 2. E as que requerem muito mais esforço e concentração, como trabalhar num projeto novo ou mesmo priorizar, são nível 3.

Você pode então criar uma outra planilha para eleger suas prioridades, que ficaria assim:

 

Nível 1 Nível 2 Nível 3
Deletar emails Agendar reunião Preparar reunião
Fazer a cama Ligar para a Diretora

da escola

Fazer lista de prioridades

E agora você vai entender por que anotou na primeira planilha o seu ¨Humor¨: para rastrear os seus níveis de energia durante o dia. Quando você está se sentindo sonolento, por exemplo, as atividades de Nível 3 são quase impossíveis realizar. Você pode usar esse tempo para as atividades de Nível 1. Então, use os horários em que você se sente mais energizado, para realizar as atividades mais complexas (com exceção de priorizar, que idealmente será a primeira atividade do dia).

Para algumas pessoas funciona intercalar atividades de nível 3 com outras de nível 1. Eu, por exemplo, que trabalho em casa, entre uma atividade e outra aproveito para recuperar minhas energias com outra coisa, como preparar o jantar ou um banho.

Isto vai muito além de gerenciar o seu tempo: de acordo com o professor Steve Kay, da University of Southern California, desrespeitar o ritmo circadiano pode levar a problemas como diabetes, depressão, demência etc.

David Rock escreveu um artigo para a revista Psychology Today dizendo: ¨Se você é pago para pensar criticamente, tente fazer a maior parte de seu trabalho no final da manhã, depois de um banho quente. (…) Se você é pago para pensar criativamente, a maioria dos adultos tem seu melhor desempenho quando inicia uma espécie de insônia(…) por volta das 14:00, quando a sonolência chega ao pico. Isso pode aumentar a criatividade (tradução livre).

Lembra da coluna “dia ideal”? Agora, ela será preenchida com as prioridades que você elencou, para que possa planejar o seu dia. Há ainda outras coisas que você pode fazer para otimizar seu tempo:

– evite interrupções, anotando seus pensamentos em um caderno e ocupando-se com eles entre um afazer e outro.

– programe horas ininterruptas de trabalho –  1, 4 horas, avalie a sua disponibilidade. Há vários apps disponíveis no mercado que bloqueiam redes sociais ou impedem seu notebook de receber mensagens durante um período.

O Coaching vai ajudá-lo não só a programar o seu tempo e usá-lo como VOCÊ quer, mas também, a descobrir o que há por trás das vezes em que você não consegue manter o plano.

E lembre-se: seu tempo livre também precisa ser planejado! Coloque-o na agenda e aproveite a vida!


Dulcineia Sañtos é Life Coach, certificada pelo NeuroLeadership Group em Londres.

www.dulcineiasantos.com